COMUNICAÇÃO TRÓPEGA

          Um certo cidadão fora incriminado
num delito que o desconhecia
e foi convidado a comparecer primeiramente
no escritório de um dos seus advogados.
Lá chegando há sempre alguém numa portaria
atendendo como recepcionista...
Assim especificam as pessoas
de uma repartição pública
ou privada
- Huma espécie de classificação formal.

Então o cidadão chegou na portaria e disse:
(se bem que não era exatamente uma portaria
e sim
um birô colocado ao lado da porta da sala)
Amigo! Eu gostaria de falar com o dr Leitão

Mas o elemento além de não saber
a arte de ler lábios
ainda estava com um alquimen nos ouvidos
e apenas abotrecava os olhos para o cidadão
que já impaciente pedia licença ou permissão
para falar com o doutor Leitão.

Infelizmente o recepcionista
parecia não entender o que o senhor dizia
e começou a berrar
quando o cidadão não aturando mais
a sua mediocridade invadiu a sala e disse:
Eu quiz falar contigo para ganhar tempo
mas pelo que me parece tudo se fez o contrário
- né!

E ele atrás do birô como quem esperava um tiro
sem falar nada fuzilou-lhe um olhar
de quem já o conhecia
mas mesmo assim continuou
na idiotice do seu silêncio
e com um dos dedos que separara da mão
ocupada por um cafèzinho
apontou para uma senhorita que estava de costa
em um outro birô mais distante

... e o jovem levantou o braço como se dissesse:
Hai hitler - e saiu
Circulou a sala para chegar de frente
e melhor ver a cara de quem o ia
novamente enfrentar
e se surpreendeu.

Era uma jovem...
que se desfigurava profissionalmente
mas apesar de tudo - uma velha amiga
de apresentações poéticas
ambos eram sócios de um mesmo club
aonde haviam diversos Portelas
Mas que apenas o original fôra o fundador
e nós simplesmente os contribuintes.

E alí por um momento
o jovem esquecera sobre as indagações
lembrou-se somente de procurar quem era
o suficiente economista de voz
que por sinal ainda não havia terminado
o seu expressivo cafèzinho.

Foi aí que a poetisa apontou-lhe
com o indicador direito
- Uma balancinha ornamentava o seu birô
e também com apenas isso
disse-lhe que o era
Ora vejam só - Com quem cujo cidadão
começava comprar xixa forense
um bacharel de direito - um delegado
um juiz - hunnnnn que nada!
acima de um promotor - um advogado!

... Êi-ê! A sua pós-graduação
nem mesmo no d. o. da união foi publicada
mas mesmo assim
já se considerando um imunizado
pela hierarquia do Ministério Público
e lá estava a mulher de olhos vendados
em cima também do seu birô
òbviamente segurando a mesma balança.

E o cidadão ficou perplexo
diante desses dois amigos de club
mas profissionalmente os desconhecia
e a Deus pediu que lhe fizesse justiça
se é que tal essência sentimental
ainda se encontrasse no fórum.

Como talvez um advogado honesto
que não lhe fizesse de tolo
ou cada vez mais pobre
Só com isso
cujo amigo desambientado
já se julgaria imensamente feliz.

Mas de tudo que adquirira
foi apenas uma pilha de formulários
todos marcados com xises
por onde deviam ser preenchidos e assinados
- coisas de analfabeto
Pobre coitada é sempre aquela vítima
que nunca nem sequer increveu-se
para um vestibular
ou pelo menos sonhou fazer uma faculdade.

Um meritissímozinho recém saído da forma
o chamou à sua sala e disse
procure e peça alguém do magistério
para que lhe possa representar
e o pobre homem balbuciou: Que droga
... se não posso representar a mim mesmo
é claro que não sou ninguém
e isto foi o suficiente
para irritar o promotor novato
que recentemente chegara de Pernambuco
onde participara de uma colheta de diamba.

E como ainda lhe ecoava no cérebro
os desafôros da máfia
virou-se para o jovem senhor e o retrucou:
O que disse mesmo?
O cidadão
temendo se complicar cada vez mais
respondeu:
É que é muito triste
se ser apenas um eleitor
Avalie-se o que poderá ser
o infeliz que não vota
Claro que ele não é nada
além de um simples brasileiro
na contagem dos povos.

É. O brasileiro é apenas um contribuinte
entre toda sorte de tributos
ele é na verdade um polivalente
porque talvez nem na estatísca humana
esteja escrito o seu nome
portanto é somente mais um escravo
na inumerável lista
do monstruoso arquivo tributário.

E depois sentou-se um pouco
numa daquelas cadeiras que se enfileiravam
pelo imenso pé de parede do corredor escuro
- não custou muito
Lá se vinha um homem alto
fino de corpo e de poucos cabelos na cabeça
mas mesmo assim - penteados para trás
como se ainda estivesse reluzindo
aquele verdor aromático da brilhantina.

Trazia impregnadas no semblante
as aparências
de quem vive de salário-mínimo
Até que o povo da fila se animou um pouco
diante de todo aquele tédio
que se aboletava por todo o beco de espera
Porque quase sempre
pessoas sofridas como aquele senhor
injustiçado pelaprópria lei
e que também estava alí. Modestamente
são humildes e boas
- Capazes para ouvirem qualquer lamúria
de um desorientado nos tribunais.

Mas tudo isso foi um puro engano
tudo não passou de um equívoco
O jovem senhor por demais educado
levantou-se quase como quem o faz continência
- Embalde sua gentileza
mas não o ignorou
Mesmo porque quase ninguém
sabe mais o que significa isso
Portanto - nem tempo para lhe dizer: Senhor
- não houve
Ouviu apenas o deselante pedido
que é por demais conhecido
e costumeiro em todas as repartições
- DÁ LICENÇA!
e passou sem dar o mínimo de atenção.

Todos que estavam alí ficaram aturdidos
inclusive o senhor que lidera esta narração
este sim - decepcionou-se tanto
como o descaso do funcionário
que sacou os ombros até as orelhas
Ferveu-lhe o sangue no corpo e rumou à porta
por onde ele havia entrado
Mas ao se aproximar da porta
o segurança moutrou-lhe a palma da mão
como se fosse no Japão ou na China
num início de luta
E se realmente fosse num desses dois povos
de um lado ou do outro
lhe teria considerado um ameaçador
mas como essas coisas sempre acontecem aqui
é bem melhor que um tres oitão

Mas o cidadão dessa história ficou por alí
o segurança precisou sair por um momento
talvez ao banheiro
e como ninguém o substituiu  ele entrou
pensou em bater na porta
mas também não bateu e entrou
pois a porta estava só
só fez desengatar o trinco - e entrou
porque sempre vai existir a ignorância
que só outra ignorância  consegue ouví-la
... e falou: Oi pessoal
um momentinho - por favor!

- Como não tinha ninguèm à porta
tomei a liberdade de entrar
mas vou tomar só um minutinho
desse precioso tempo de voces
e enquanto isso se dirigia para o funcionário
aquele homem alto
magro e careca de quem se falara antes
e disse: Olha amigos!

Já sei que todos daqui
com excessão dos seguranças
- são juizes
promotores e advogados
e jamais quisera afrontar os senhores
principalmente em respeito
aos vossos níveis de autoridade
 porque na verdade ser um jurisperito
não é tão difíciltanto quanto
ser dignificado pela jurisprudência
e ter na consciência
a dignidade da verdadeira justiça.

Mas isso ele dizia em silêncio
e calmamente ele se continha dentro de sí mesmo
depois passou alguns momentos
conversando com a poetisa
que também era advogada
só mais um membro da o. a. b.
família heterogênea da mesma máfia
que se envolvera o juiz
Mas finalmente feliz
ecoou o grito do poeta
que fora absolvido antes do julgamento.


Manoel Messias Santos o pensador

Comentários

  1. Valeu! Nada como a arte para expor as verdades, sem repassar a mágoa da revolta.
    Até mais...

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